Apesar de ter nascido em uma grande metrópole, que desde muito tempo a vida já se fazia corrida em seu dia-a-dia, acabei sendo criado longe desse “rush”. Cresci no nordeste, no litoral, mas mesmo na capital era possível respirar um pouco de cultura popular, do maracatu, do folclore de contos que habitam o imaginário popular.
Desse tempo tenho muitas memórias, algumas dariam bons filmes, outras já até deram como o caso do homem do resolveu desafiar o diabo que conta a história do destemido Ojuara e as armações de João Grilo, aquele do Auto da Compadecida. Todos esses causos eu ouvia quando criança no embalo da rede ou quando o velho tio, na fazenda onde eu passava minhas férias, reunia todo mundo na boca da noite. Tudo aquilo me fazia esquecer completamente a televisão e o vídeo-game.
Porém nada era tão fascinante quanto o mundo da pistolagem, os contos da vida marginal. Os pistoleiros no nordeste de nada têm em comum com os antigos cangaceiros, talvez o glamour de uma vida envolta do respeito e admiração popular, mas é certo que assim como o cangaço a pistolagem é um sacerdócio.
Idelfonso Maia Cunha, o Mainha era um desses mitos que gostávamos de “encenar” quando brincávamos de polícia e ladrão. Ouvi diversas histórias desse sujeito, todas com um ar de plena certeza por parte do narrador. Certa vez, quando eu já estava na faculdade, uma colega que morava na região onde Mainha vivia contou que em uma viajem de ônibus teve a oportunidade de sentar ao seu lado e ficou completamente apaixonada por ele dado a sua gentileza e simpatia.
Outro colega, que por ventura também era conterrâneo de Mainha, contava de sua astuciaria e inteligência em estudar os hábitos daqueles a ele encomendado, uma pessoa meticulosa e detalhista que fazia jus a sua fama do alto de toda “honra” que se atribuía a um pistoleiro.
Temido e respeitado, eram atribuídos na conta do pistoleiro cerca de 90 encontros que este teria providenciado junto ao criador, provavelmente mais folclore em torno de homem que viveu eternamente um personagem criado pelo inconsciente coletivo do povo nordestino.
Mainha nos deixou na manhã do dia 5 de janeiro de 2010, como bem intitulado em um diário de grande circulação de Fortaleza, o mito caiu feito suas vítimas, com um tiro na cabeça.
“Cumpriu sua sentença e encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca de nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo morre” (Ariano Suassuna)
Cresci ouvindo histórias que pistoleiros eram homens maus e matavam qualquer um que sonhasse em apenas olhar torto para eles. E vinha logo o semblante de um cara grande, vestido de preto, usando óculos escuros e com vários cordões de ouro no pescoço com suas armas também banhadas a ouro.
Mas não eram monstros como nossos pais pintavam para nós e também estavam longe de ser monges. Pessoas normais assim como eu e você com a única diferença que são capazes de tirar a vida de outra pessoa por muitos trocados. Discretos como somente um pistoleiro sabe ser passam despercebido no meio do povo, ao seu lado como um sujeito comum.
Todas essas histórias povoavam meu imaginário até hoje.
*Título copiado da edição do Jornal O Povo