Justiça para quem precisa de Justiça
15/11/2010 Deixe um comentário
Naquele dia o personagem sabia que tinha um compromisso importante, porém estava reticente em ir, apesar de ser inviável não ir. Sua ida era compulsória e sua falta iria trazer consequências além de sua capacidade. O personagem saiu de casa naquele dia ciente de que aquele dia não seria um bom dia.
A chegada ao Fórum não foi agradável, da espera até a chamada longos quarenta e cinco minutos de indagações, ou apenas a mesma: o que eu estou fazendo aqui? E recordara de todos os fatos que o levaram até aquele momento. O dia em que adquiriu a linha telefônica, a espera até a instalação e as inúmeras ligações para tentar pedir serviços e desfazer-se de cobranças abusivas.
Personagem também se lembrou do dia inteiro de trabalho perdido quando foi ao PROCON pela primeira vez para ter algum tipo de apoio, lembrou também da decepção que teve no dia da audiência de conciliação naquele órgão, da expectativa que criou de ter finalmente o seu problema resolvido naquele dia e o quão frustrante foi quando nenhum representante da empresa de telecomunicação sequer deu explicação pela ausência.
Só restou então ao personagem recorrer à via judicial para resolver sua questão. Como se tratava apenas de uma cobrança indevida em sua conta telefônica ele queria apenas que lhe fossem devolvidos os valores cobrados a mais, sua causa era realmente pequena e para isso existem os tribunais de pequenas causas. Também não entendia toda aquela burocracia. Se já havia tentando uma conciliação no PROCON porque seria necessária outra conciliação no Fórum.
Quando foi chamado e encaminhava-se até a sala de audiência sentia-se mínimo, reduzido e humilhado frente à intimidade do conciliador com os advogados da empresa, pareciam amigos íntimos, de infância, quase irmãos. Falavam como se o personagem não estivesse ali, e parecia mesmo não estar, discutiam o seu processo afirmando a culpa era dele por não ter lido as letras mínimas do contrato onde era previsto, que ele, o personagem, poderia ser roubado. Falavam em idioma tão próprio que não parecia o português, mas de um juridiquês incompreensível.
Apesar de ter decorado de cor e salteado sua história para o conciliador sequer foi lhe dado à palavra, somente aos quatro advogados da empresa e saiu de lá certo que teria que voltar a uma nova audiência, agora de instrução e julgamento. Ciente que para reaver seus poucos reais cobrados a mais teria que contratar um advogado por alguns muitos reais e que saíra mais derrotado do que entrará naquele Fórum. Finalmente personagem não entendeu a parte da lei onde diz que a lei deve ser igual para todos, e, ali eram 4 advogados e ele sozinho.
Personagem é qualquer pessoa que recorra à justiça e tem que percorrer os caminhos tortuosos dos fóruns e enfrentar a sanha de advogados em “defender” seus contratantes. Personagem é pessoa comum, com um emprego comum, que mora em uma casa comum, não vive o cotidiano da justiça e quando precisa de seus serviços percebe nos servidores públicos o ânimo de quem está fazendo um favor e não lhe prestando um serviço.







