Censura

A música versus a censura durante o regime de exceção no Brasil

Por: Eduardo Duarte, Jéssica Buchmeier e Karen Aiache. *

Censura consiste em qualquer tentativa de suprimir informação, opiniões e até formas de expressão, sejam essas jornalísticas, cientificas, políticas ou artísticas. O propósito é a manutenção do status quo, é o instrumento do Estado para o controle da sociedade, impede a liberdade de expressão criminalizando ações de comunicação.

No Brasil a censura oficialmente existiu durante todo o período colonial. Em 1934 foi decretada a censura por Getúlio Vargas, mas seu período marcante foi durante a ditadura de 1964 com a criação da Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP) que ganhou força ainda depois da entrada em vigor do AI-5.

O órgão chegou a examinar sessenta mil músicas e tinha sede em Brasília. Artistas das mais variadas vertentes tiveram seus trabalhos vetados como Chico Buarque, Belchior, Gilberto Gil, Zé Rodrix, Vinicius de Morares, Paulo Coelho, Caetano Veloso, Raul Seixas, Odair José, Geraldo Vandré, entre outros. Insatisfeitos com a repressão dos militares, compositores disseminaram suas críticas por meio de letras que se tornaram a trilha sonora da ditadura no Brasil.

Juan Trasmonte, agitador cultural, no artigo Afasta de mim esse cálice afirma que Raul Seixas teve 35 músicas censuradas e chegava a inventar palavras para driblar a censura. A letra original de Óculos Escuros do hoje consagrado escritor Paulo Coelho foi rejeitada por ser considerada “veiculo de mensagem subversiva”. Transmonte ainda lembra que o então popularíssimo Odair José teve diversas canções questionadas, entre elas Pare de Tomar a Pílula, o problema com ele não era o engajamento político, mas as letras que atentavam “contra a moral e os bons costumes”.

Outro caso emblemático foi o do cantor romântico Waldick Soriano, que em 74 teve um dos seus maiores sucessos censurado pelo regime de exceção, Tortura de Amor, simplesmente porque era proibido pronunciar a palavra Tortura. Em 2005, o jornalista e historiador Paulo César de Araújo publicou o livro “Eu não sou cachorro, não – Música popular cafona e ditadura militar” (Editora Record).

Algumas letras eram politicamente engajadas como Pra não dizer que não falei das flores de Geraldo Vandré, a música se tornou o hino da juventude que resistia a ditadura, É Proibido Proibir de Caetano Veloso um protesto explicito contra censura, e a Canção da Despedida de Geraldo Azevedo quando dizia “Já vou embora, mas sei que vou voltar, amor não chora, se eu volto é pra ficar” cantava aos artistas que eram deportados como Caetano Veloso e Gilberto Gil que foram obrigados a viver no exílio.

“Eu não tive problemas com a censura. A censura é que teve problemas comigo. Censuraram uma série de canções minhas como, por exemplo, a canção do operário de obra, a canção dos prisioneiros e outras canções que lidavam com assuntos limítrofes”, explica as proibições que enfrentou durante o regime militar José Rodrigues Trindade, o Zé Rodrix, artista crítico e de espírito naturalmente questionador em entrevista para o site Censura Musical.

No Brasil, lutava-se contra a ditadura militar. O golpe de 64, teve Castelo Branco como o primeiro de uma série de presidentes ditatoriais.

Enquanto Roberto Carlos e a Jovem Guarda tocavam ingênuas canções nas tardes de domingo, parte dos artistas fazia parte da resistência ao regime de uma maneira autônoma, fragmentada.

O lema “é proibido proibir” que, para os jovens franceses era um princípio de rebeldia nos protestos contra o conservadorismo e a favor da liberdade, espalhou-se pelo mundo e motivou os jovens no Brasil. A contracultura inaugurada pelos hippies norte-americanos, soava no Brasil como pura alienação. Mesmo assim, afrontava a ditadura.

Composta por Caetano Veloso, É proibido proibir ficará como um marco de coragem, apesar de todo o ritual de proibições. A concepção inovadora criou polêmica e dividiu a sociedade. Mesmo assim, abriu novos caminhos para o seu próprio desenvolvimento. O elemento alegórico e a ironia estão sempre presentes.

Além de estar criticamente atenta à interpretação cultural da contemporaneidade, como produto dos veículos de comunicação de massa a letra discorre sobre esses elementos.

Cálice” é uma das músicas mais panfletárias de Chico Buarque e em todos os versos são metáforas usadas para contar o drama da tortura no Brasil no período da ditadura militar. Faz uma analogia entre a Paixão de Cristo e o sofrimento vivido pela população aterrorizada com o regime autoritário. A ambiguidade da palavra “cálice” em relação ao imperativo “cale-se”, remete à atuação da censura.

“Para não dizer que não falei das flores”, é um apelo por mudanças. Às aspirações do povo que vivia um regime de opressão e instabilidade econômica, social e política. Traz no seu bojo toda a força, inconformidade e chamado de luta e de mudança, características próprias da juventude. Fala em união, igualdade, integração e abordam os problemas sociais da época, a pobreza, a reforma agrária, a vida dos soldados nos quartéis, a inutilidade das guerras conclamando a todos para uma ação conjunta de mudanças, sem demora.

Não é possível dizer que a censura acabou com a redemocratização do país durante os anos 80, talvez o órgão oficial tenha sido extinto e oficialmente a censura esteja banida, mas o Estado encontra outras formas de praticar a censura, usando de subterfúgios o Poder Judiciário para reprimir formas de expressão. A prática de um possível controle social da imprensa vem de encontro plena liberdade de expressão, preceitos básicos para uma sociedade livre e democrática.

O site Censura Nunca Mais sempre alerta as tentativas de censura no Brasil, denuncia constantemente quando os veículos são censurados pelo judiciário como o caso do jornal Estadão que no último dia 31 de julho foi colocado sob censura, e questiona: “mesmo depois de tudo o que passamos, de tudo o que aprendemos na nossa história, a censura está de volta. A pergunta é: o que virá depois da censura do Estadão? A censura de outros jornais? Da TV? Dos nossos Blogs? Twitter? Não, não podemos deixar isto acontecer.”

* Acadêmicos de Comunicação Social/ Jornalismo da Universidade Federal do Acre

All Star 80

O CD virou DVD, a música é MP3 e até mesmo o computador, está nos cyber cafés, a carta é e-mail, e o bilhete, mensagem SMS, a biblioteca agora é internet. Bem vindo ao ano 2000! Quem nunca sentiu saudade, que atire o primeiro bolachão. Você sabe o que é um bolachão? Então você tem mais de 30 anos, ou deve estar bem perto.

Sentir saudade é bom. Fica melhor quando o assunto é música, aquela baladinha que lhe traz o flash do primeiro beijo, o rock que embalou o primeiro porre, a primeira noite fora de casa, os primeiros ideais revolucionários, mesmo que a revolução fosse apenas sair de casa para uma festinha até mais tarde.

Nos anos 80 o contexto econômico político mudou. A hiperinflação associada à transição democrática foi pano de fundo para figuras como Renato Russo, Cazuza, Herbet Viana e tantos outros recriaram o cenário do rock nacional, e são referências até hoje, com refrões que são autênticas palavras de ordem. Um deles: “Que país é esse!”.

Fico com saudade quando ouço hoje no barzinho a voz e o violão cantar, que nossos sonhos foram todos vendidos, mas que ainda temos todo tempo do mundo. “Eu devia estar contente, mas confesso abestalhado que estou decepcionado”. De quebra a angústia de saber que ainda não sabemos escolher presidente e que a vida é a arte de viver da fé.

Não que falte coragem para a moçada de hoje (talvez até falte…). Mas velhos como eu gostam de viver de recordações, voltar no tempo, achar que ainda tem 18 anos e vai salvar o mundo de novo, mas…, “quem roubou nossa coragem”? Los Hermanos é muito bom, mas a Legião Urbana sempre será a melhor.

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