Justiça para quem precisa de Justiça

Naquele dia o personagem sabia que tinha um compromisso importante, porém estava reticente em ir, apesar de ser inviável não ir. Sua ida era compulsória e sua falta iria trazer consequências além de sua capacidade. O personagem saiu de casa naquele dia ciente de que aquele dia não seria um bom dia.

A chegada ao Fórum não foi agradável, da espera até a chamada longos quarenta e cinco minutos de indagações, ou apenas a mesma: o que eu estou fazendo aqui? E recordara de todos os fatos que o levaram até aquele momento. O dia em que adquiriu a linha telefônica, a espera até a instalação e as inúmeras ligações para tentar pedir serviços e desfazer-se de cobranças abusivas.

Personagem também se lembrou do dia inteiro de trabalho perdido quando foi ao PROCON pela primeira vez para ter algum tipo de apoio, lembrou também da decepção que teve no dia da audiência de conciliação naquele órgão, da expectativa que criou de ter finalmente o seu problema resolvido naquele dia e o quão frustrante foi quando nenhum representante da empresa de telecomunicação sequer deu explicação pela ausência.

Só restou então ao personagem recorrer à via judicial para resolver sua questão. Como se tratava apenas de uma cobrança indevida em sua conta telefônica ele queria apenas que lhe fossem devolvidos os valores cobrados a mais, sua causa era realmente pequena e para isso existem os tribunais de pequenas causas. Também não entendia toda aquela burocracia. Se já havia tentando uma conciliação no PROCON porque seria necessária outra conciliação no Fórum.

Quando foi chamado e encaminhava-se até a sala de audiência sentia-se mínimo, reduzido e humilhado frente à intimidade do conciliador com os advogados da empresa, pareciam amigos íntimos, de infância, quase irmãos. Falavam como se o personagem não estivesse ali, e parecia mesmo não estar, discutiam o seu processo afirmando a culpa era dele por não ter lido as letras mínimas do contrato onde era previsto, que ele, o personagem, poderia ser roubado. Falavam em idioma tão próprio que não parecia o português, mas de um juridiquês incompreensível.

Apesar de ter decorado de cor e salteado sua história para o conciliador sequer foi lhe dado à palavra, somente aos quatro advogados da empresa e saiu de lá certo que teria que voltar a uma nova audiência, agora de instrução e julgamento. Ciente que para reaver seus poucos reais cobrados a mais teria que contratar um advogado por alguns muitos reais e que saíra mais derrotado do que entrará naquele Fórum. Finalmente personagem não entendeu a parte da lei onde diz que a lei deve ser igual para todos, e, ali eram 4 advogados e ele sozinho.

Personagem é qualquer pessoa que recorra à justiça e tem que percorrer os caminhos tortuosos dos fóruns e enfrentar a sanha de advogados em “defender” seus contratantes. Personagem é pessoa comum, com um emprego comum, que mora em uma casa comum, não vive o cotidiano da justiça e quando precisa de seus serviços percebe nos servidores públicos o ânimo de quem está fazendo um favor e não lhe prestando um serviço.

O dia em que meus pais fumaram maconha

Eu devia ter uns 17 anos na época, ou ainda ia fazer. Estava naquela idade meio rebelde sem causa, meio maluco beleza, quando a única preocupação que se tem eram as notas no final do bimestre, ao invés de contas para pagar no final do mês.

Naquela época os pais eram rígidos na criação dos filhos, e a nossa privacidade quando muito se restringia a fechar a porta do banheiro nos momentos de prazeres solitários.

Nessa noite como sempre minha mãe chegou de surpresa entrando no meu quarto, como nunca fui bom de matemática calculei mal a hora em que ela e meu pai voltariam do supermercado. Me pegou com a mão na massa,  pior que você talvez esteja imaginando, o tal dos prazeres solitários.

Eu estava “passando a goma”, apertando “unzinho“, um cigarrinho do capeta, pronto para fumar meu segundo baseado daquela noite, pegar os livros e estudar para a prova do dia seguinte.

Sem entender exatamente o que estava fazendo ela deu um grito:

- O que é isso Caduzinho, desde quando você fum… Ai meu Deus, você está usando tóxico!

Caindo em si e percebendo o que realmente estava acontecendo ali deu um grito ainda mais alto chamando por meu pai.

- Jota, vem aqui agora!

Eu imaginava um sermão, castigo, castração química, prisão domiciliar, ou entrar para um colégio militar, essas coisas que na época serviam para punir os filhos que cometiam desvio de conduta da moral e dos bons costumes.

A tradicional corça que eu estava levando naquele momento não estava surtindo efeito, afinal era o segundo que eu ia fumar, já estava abstraindo as palavras do meu sisudo pai, mas lembro de uma pergunta que me trouxe novamente à realidade daquele momento:

- Afinal o que você sente quando fuma isso?

Perguntar isso para um adolescente de 17 anos, quase entorpecido é algo perigoso e não medi as consequências dos meus atos e respondi com muita franqueza e naturalidade

- Ah pai, fico de onda, eu relaxo e penso melhor nas coisas…

- Mas como assim Carlos Eduardo? Explique-se melhor!

Disse o meu pai com cara de quase nenhum amigo sentindo que estava perdendo o controle da situação.

Sentindo que o debate estava a meu favor, subi o tom do discurso da apologia e me senti como Fernando Cabeira discursando no Congresso Nacional.

- São quase dez mil anos de uso sem sequer uma morte…

Achando que aquela conversa de maconheiro ia convencer o velho José Lacerda, eis que ele me interrompendo novamente e em uma cartada de mestre fez algo que realmente me deixou assustado, ou melhor apavorado.

- Me dá isso, vou provar!

Eu abri os olhos e juro pela alma de Bob Marley que a “viagem” do primeiro cigarrinho foi embora toda de uma vez só!

- Pai, você não vai gostar!

- Você não gosta Cadu, porque eu não iria?

E lá vai meu pai, sem muito prática, parecia que estava tentando fumar um cigarro de filtro, daqueles que a gente compra em qualquer posto de gasolina.

- Não pai, tem que segurar assim. Não, prende, puxa um pouco a fumaça, passa…  Não!!! Não passa…

Quando dei conta, estava ensinando meu pai a fumar maconha. Hoje fico pensando se aquele “fininho” que abriu os trabalhos estava com o prazo de validade vencido.

- Assim, mas eu não estou sentindo nada…

- Calma pai, isso não é veneno pra fazer efeito de imediato…

Ele deu uma risada bem frouxa como há muito tempo eu não via, e imaginei: acho que ele vai ficar muito “”loco”, melhor eu não fumar nada, afinal alguém tem que ficar careta nessa história.

E não ficou nisso, minha mãe, professora universitária, que só olhava falou.

- Me deixa provar também Jota!

- Pega Maria Rita, aqui, mas cuidado pra não apagar!

Eu já estava mais do que arrependido do dia em que comecei a fumar, acho que se eles queriam me repreender por conta de eu estar usando drogas já tinham mais do que conseguido, eu estava completamente apavorado.

- Nossa, Tita, que é isso aqui na sua cabeça?

- Não tem nada mãe é onda!

Eu dizia para minha mãe.

- O que é Tinha? Não tem nada, mas minha mão parece que tá maior você não acha?

- Não tem nada pai é onda!

Eu dizia para meu pai, e via os dois rirem compulsivamente.

- Ai Tita tá me dando uma fome? Vamos sair para comer alguma coisa?

- Mãe é larica! Cuidado com o regime!

- Que regime Caduzinho larga a mão de ser careta!

Caramba minha mãe estava me chamando de careta, até uns minutos atrás era eu que pensava isso deles.

- Vamos sair então, depois quem sabe a gente não vai dançar

Quando meu pai saiu do banho, percebi que ele tinha tirado aquele bigodão cultivava há anos e não estava mais com aquela cara de advogado e minha mãe dizendo.

- Nossa, como você ficou mais jovem, tá um gato!

Eu andava desesperado, de um lado para o outro. Estava  realmente preocupado com os meus pais, não seria uma boa ideia eles saírem sozinhos na rua naquele estado e ainda mais drogados, poderiam ser parados em alguma blitz, justo meu pai que era um advogado renomado.

- Pai, eu vou com vocês!

Disse numa tentativa de proteger meu pais.

- Claro que não né Cadu!

- É filho, você já é bastante crescido e pode ficar sozinho!

Juro para vocês, não consegui dormir enquanto meus pais não chegarão, mas ainda pude ouvir minha mãe surrando para o meu pai…

- Onde será que ele guarda hein?

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